Crônica - Não basta ser pobre, tem que participar

Depoimento de W. A, 22 anos, uma pobre que anda de lotação


"Que morte horrível! Pensei que nunca acabaria.

Apanhei muito antes de conseguir entrar em algum veículo. As pessoas batem, chutam e às vezes agem como juíz de futebol e são filhas da piiiiiii.

Dentro do veículo parecia o inferno. Nunca fui lá, mas deve ser quente e você deve rezar para sair.

Aquele cheiro de pessoas aglomeradas e molhadas, já que chovia muito lá fora (eca!).

Os vidros fechados e todo mundo respirando o mesmo ar, nem uma brechinha dos vidros para entrar um ventinho.

A música que tocava, nem se fala. Sabe aquele grande sucesso setanejo, que já foi regravado em ritmo de pagode e axé, hoje ele é forró (Auuu!).

Mulheres com seus filhos de 10 anos, que insistem em não pagar passagem. Tem aquelas pessoas que vão descer no ponto final, mas adoram ficar na porta.

Quando você pensa que acabou, ilusão!!!

Eu estava sentada no canto esquerdo, lá no fundo. O senhor cheio de sacolas do Extra nem se moveu, para eu descer tive que ser malabarista.

Pra completar o motorista pára 1 Km de distância depois do ponto, e para completar no meio de uma poça de água".

Texto de 2002